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Reconhecimento mundial: mais de duas décadas viajando para a Antártica Entrevista - Amyr Klink
Comandante de embarcação, Amyr Klink nasceu em São Paulo e começou a freqüentar a região de Paraty (RJ) com a família, aos dois anos de idade. A cidade histórica o inspirou a viajar no mar. Autor de livros e premiado por seus projetos, falará aos revendedores que forem à Expopetro sobre suas experiências. Cursou economia na universidade de São Paulo (uSP), pós-graduação em administração de empresas na universidade Mackenzie. Dirige a Amyr Klink Planejamento e Pesquisa ltda. e a Amyr Klink Projetos Especiais ltda.

 
 
Entrevista Amyr Klink

mais de duas décadas viajando paRa a antáRtica

O que os revendedores podem esperar ao assistir sua palestra durante a Expopetro?

Tenho feito viagens para a Antártica há 25 anos e, ao contrário das outras pessoas que fazem isso no mundo, sempre desenvolvemos as embarcações que usamos. Quero mostrar o modo como trabalhamos, no qual, mesmo não contando com grandes “estrelas”, temos feito projetos de impacto e reconhecimento mundial. Hoje, temos os melhores barcos polares do mundo em nosso currículo. O Paratii 2 foi eleito o melhor barco operando na Antártica. Nunca tivemos o privilégio que as nações de primeiro mundo oferecem, de contar com expertise para este tipo de atividade. A diferença é o trabalho de treinamento que desenvolvemos e o exercício de planejamento, num país onde encontramos uma série de dificuldades não encontrada em outras nações. Existe o aspecto humano das pessoas com quem trabalhamos, estes, em pouco tempo, compreendem que têm responsabilidade “criminal” ao trabalhar. Portanto, são de fato comprometidos com o que fazem e sabem que, quando estamos fora do Brasil, em águas frias, um erro pode ser fatal.

Conte um pouco sobre sua decisão ao atravessar o Atlântico Sul a Remo em Solitário, em 1984: o que o levou a pensar neste projeto? Não considero um projeto. Nunca gostei de futebol, gostava de remar. Remei competitivamente (remo olímpico) durante seis anos, em Paraty. Começou como uma crítica a uma série de tentativas no Atlântico Norte que resultaram em fracasso. Sem querer, de repente, estava desenhando minha própria viagem, um barquinho que foi construído no Rio de Janeiro. Foi o primeiro exercício de aprendizado, de planejamento real que tive, onde a parte de logística, as soluções técnicas do barco eram importantes, assim como o estudo da rota. Depois disso, eu queria construir um barco para navegar para a Antártica. Alguns anos depois consegui construir o primeiro e a partir disso tenho viajado todos os anos.

O senhor se considera testemunha das alterações climáticas das últimas décadas. O que é de fato mais perceptível?

Não sou uma testemunha importante. Conheço a Antártica há 25 anos, tenho viajado regularmente para lá, já são 29 viagens. Tenho testemunhado enormes alterações, são duas décadas e meia, mas este período não serve para atribuir depoimento para qualquer tendência. O fato interessante é que meu testemunho, minúsculo e insignificante, coincide com as tendências históricas que estão sendo verificadas, embora, na Antártica, o registro de fenômenos climáticos seja muito recente, porque ela não tem um histórico de mil anos com o qual você possa se basear. Mesmo num período tão pequeno, como essas duas décadas, é possível constatar que há aceleração nas mudanças. Nestas viagens, estamos sempre em contato com pessoas capacitadas para falar sobre isso e há quase concordância de que grande parte das alterações tem efeito originado por nós. Mas existe um alarmismo enorme por parte da imprensa. Existem teorias ridículas.

Quantas milhas náuticas o senhor já navegou?

Tenho entre 220 e 250 mil milhas náuticas navegadas (entre 407 e 463 quilômetros). Curiosamente, a maior parte, mais do que a metade, navegadas em águas frias, onde tem gelo. É um número alcançado por poucos, mas não quer dizer muita coisa. O grande mérito, do qual me orgulho, é que a maior parte deste currículo de milhas foi feita em barcos que nós construímos, isso é um aprendizado interessante. A maior parte dos navegadores de outros país que navegam na Antártica, hoje, compram barcos. São excelentes navegadores, mas não têm este conhecimento de fazer um projeto desde a raiz, o que nos dá uma confiança muito maior. Meu currículo não tem o que todos eles têm: acidentes. Eles perderam tripulantes ou parte de tripulantes, o que é freqüente nessas viagens, e eu nunca tive acidentes. Fiz viagens muito complicadas, mas desenvolvemos tudo, geladeira, sistema de comunicação, tudo o que precisamos.

Quais são os próximos projetos que pretende pôr em prática?

Do ano passado para cá, nos candidatamos a fazer a manutenção de uma estação fixa e privada na Antártica, junto ao governo inglês e recebemos parecer favorável. É uma estação não necessariamente voltada para a pesquisa, talvez para projetos ligados à área da educação e, para mim, isso é um sonho de 30 anos. Há mais de 20 anos percebo que existem meios mais eficientes para desenvolver trabalhos de pesquisa e concordo com os ingleses quando falam que a principal importância da Antártica, hoje, está na difusão do conhecimento, muito mais do que na pesquisa pura e simples. Vou levar o Paratii 2 no final deste ano para lá e devo deixá-lo por mais um ano e meio. Irá funcionar como plataforma de apoio nesse trabalho de restauração de uma minúscula “casinha” que vamos prover de energia. O nosso grande desafio é encontrar um meio limpo e eficiente de gerar energia e, provavelmente, não pelos meios convencionais. Uma das alternativas interessantes é a geração através de etanol, seja por reforma molecular, por uma célula de combustível, seja pelo uso de gerador térmico. Existe um descrédito muito grande hoje no mundo em relação ao uso de etanol, muita gente duvida da eficiência e viabilidade, mas o Brasil está muito avançado nesta área.

Como o senhor percebe a possibilidade de empreender no país, hoje?

Temos uma experiência muito rica. Empreender no Brasil é diferente de outros lugares; já trabalhei na Suécia, França, Espanha e é muito diferente. Aqui, o empresário é obrigado a ter mais talento do que nos EUA, por exemplo. Qualquer pessoa lá monta uma empresa, não precisa ser muito inteligente, mas aqui é diferente. É fácil montar uma empresa ilícita, mas você não sobrevive a longo prazo. Hoje, ficou caro sonegar, trabalhar fora das leis; por mais estúpidas que sejam as regras, no Brasil, elas existem e têm que ser respeitadas. Nós temos uma legislação trabalhista completamente destrutiva, sem sentido, mas é o que existe. Temos uma legislação tributária extremamente insensata. Nesse sentido, o mérito que eu tenho é o de ter construído projetos e, hoje, fazemos isso para terceiros; o que tenho é essa vivência num cenário confuso, o país muda de regras, de moeda, mas tem lugares piores. A Argentina, por exemplo, é pior que o Brasil. A lei trabalhista, é claro, pretende, ao máximo, proteger o trabalhador, mas faz de maneira errada. O empresário aqui tem que ter mais do que a competência na sua área, tem que estar atento a mudanças, a cenários que vão surgindo, concorrência, inovação, atualização. Temos que estar o tempo inteiro atentos.

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