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| Gestão ambiental:Visão a curto prazo é erro comum | Entrevista Ailton Pinto Alves Filho | ||||
| A gestão ambiental empresarial é fator recente nos negócios, mas é algo que pode ser implantado sem preocupação de perdas. Coordenador do curso de gestão empresarial ambiental do Centro universitário da Fundação Educacional Inaciana (FEI), arquiteto e geógrafo, com pós-doutoramento na área de saúde ambiental, Ailton Pinto Alves Filho diz que se trata de uma tendência, mas permanente, que se sustentará com a necessidade de cuidados com o meio ambiente. | |||||
O que é gestão ambiental dentro de uma empresa?
Para grandes empresas, principalmente a indústria, isso é um pouco mais fácil, pois atualmente existe mais assessoria nesta área e uma cobrança muito grande das empresas que participam da cadeia produtiva. Existe sempre uma que é chave. Por exemplo, na área automobilística, é a montadora que exige de seus fornecedores isso e vai gerando a demanda dentro da cadeia. No setor do comércio varejista, que, às vezes, como é o caso de postos de combustíveis, são geradores de impacto ambiental, existe a legislação cobrando, mas de certa forma não há contrapartida. Os postos começam agora o que já é fator antigo na indústria. O cliente e fornecedores, muitas vezes, não são exigentes neste sentido, por desconhecimento, e isso resulta em falta de incentivo para estes setores. O que está mudando um pouco é que existe mais cobrança por parte da sociedade, que busca saber mais sobre este tema e isto começa a despertar o interesse das empresas, pois percebem que se oferecerem aos clientes algum diferencial isto valerá como referência. Alguns postos no Brasil e procedimentos adotados servem de exemplo para o setor.
Como o comércio pode fazer sua gestão ambiental, além das obrigações previstas em lei?
Existe uma tendência que é internacional, mas segue forte aqui no Brasil, que é conhecida como Produção Mais Limpa. Ela envolve o diagnóstico da empresa, principalmente nos principais geradores de impacto e busca de soluções inovadoras, que podem ser tanto soluções gerenciais, que envolvem apenas mudanças de procedimentos – o que às vezes faz diferença grande e não custa muito –, até soluções mais técnicas. Na área de postos temos exemplos como reaproveitamento do óleo, tanques de contenção para evitar poluição do solo. São quesitos necessários até por lei, mas existe uma série de outras coisas que as revendas podem oferecer na medida em que se permita a empresa diagnosticar. Hoje, algo muito importante, que envolve a questão conhecida como sustentabilidade, mas é também responsabilidade social, é ouvir as partes interessadas. Entre essas, todos que estão envolvidos com a empresa, comunidade que está no entorno, clientes, instituições ligadas. Cria-se uma transparência maior nos processos e atividades que são feitas. Na medida em que se está seguindo a lei, não é necessário ter medo disso. Porém, não se pode ver isso como um custo adicional, pelo contrário, é uma forma de economizar, evitar desperdício.
A gestão ambiental, portanto, contribui para a economia do negócio?
O primeiro fator que o empresário analisa é custo, então ele deve pensar quais custos estão associados a impactos ambientais. Porque há recursos que estão sendo utilizados para aquilo, uma parcela significativa sempre. Se observar pela tabela de passivos que tem, ele deve tentar diminuir estes custos. Se trabalhar desta forma seu lucro aumenta sempre. Pois vai perceber sob a perspectiva de diminuir estes. A questão tangível do lucro maior que terá é por esta diferença e o restante, o intangível, é a melhor satisfação do cliente, que surge também com um posto organizado, limpo. Quando o empresário pensa em evitar contaminação, quando se vê que existe uma área determinada para descartar lixo e reciclar. Todo custo que tem com descarte do material ou até, de alguma forma, revender. O que estava do lado do débito passa a estar no crédito.
O consumidor brasileiro está preocupado em comprar de empresas que têm esse comprometimento?
Existem muitas pesquisas que mostram que sim. Mas isso é cíclico. Têm momentos em que isso aparece mais na mídia e em outros há redução. Mas é algo que deve ser permanente. A tendência é crescer, mesmo que seja a longo prazo, mas nunca diminuir. Se o empresário investir nisso vai ter uma aceitação crescente, não será algo que ele investe hoje e depois irá se perder, como uma moda. Esta preocupação é permanente.
O empresário precisa se especializar e estudar a gestão empresarial ambiental para aplicar em seu negócio?
Se não há um estudo formal, o empresário terá que estudar o tema nem que seja no âmbito de uma pesquisa que realize de maneira informal. Em todas as áreas acontece desta forma. Isto também está sendo informado pelos órgãos envolvidos nisso. Nas próprias secretarias de meio ambiente. Tenho conhecimento de que na Universidade Federal do Rio Grande do Sul existe uma área específica sobre estes cuidados e até projetos sobre produção mais limpa.
Os cursos sobre gestão empresarial ambiental funcionam há quanto tempo no Brasil? Como acontece isso em outros países?
São do início deste século, pois a norma específica para gestão ambiental é de 1996. Antes disso era raríssimo. A norma já existia em países europeus. A forma de gestão nos Estados Unidos é um pouco diferente. Isso é mais um padrão no Canadá e na União Europeia. Se falarmos em questão ambiental ela não vai muito antes da década de 1980, quando a Organização das Nações Unidas, em 1987, posicionou todos os acordos sobre o tema em um relatório. Para se ter uma ideia, a legislação americana que tratará deste tema, que ainda é muito na base da punição – existe um padrão, as empresas que ultrapassam este são multadas –, é de 1970. Se pensarmos, antes disso não existia, no mundo inteiro, legislação e a indústria tem mais de 250 anos.
Quanto tempo é necessário para criar essa consciência nas indústrias e comércios brasileiros?
Na indústria isso já está aumentando, pois a cobrança, principalmente no exterior, já é crescente. A matriz exige isso das filiais, e como estamos em um mundo globalizado ela não conseguirá exportar se não seguir. É questão de sobrevivência. Para isso se disseminar na sociedade e envolver outros segmentos, para questionar a forma como consumimos, irá demorar muito tempo, pois questionamos mas não vamos a fundo nas questões, vamos até “onde aperta o calo” e paramos. Isso somente com uma necessidade maior.
Quais são os erros mais comuns na gestão ambiental de uma empresa?
Um erro que acaba com muitas empresas: a visão de curto prazo. O empresário deve ter visão estratégica e planejamento que não trabalhe somente com o bem tangível. Não é possível pensar só no capital fixo e no variável, mas sim nos outros fatores que estão no entorno do negócio. O empresário pensa no resíduo de forma burocrática, ou seja, pensa em se livrar dele, mas não busca soluções originais. Isso é um problema. Empresa que pensa assim tem pouca chance de sobrevivência.
Quais são as novidades tecnológicas para gestão ambiental empresarial?
Existem soluções tecnológicas, pois temos um avanço em todos os setores, mas, às vezes, as mais simples são as mais baratas e pertinentes. Isso envolve a rede, a possibilidade de ouvir outros empresários e usuários dos postos, por exemplo, que podem apresentar soluções que poderiam ser percebidas, mas como estamos envolvidos com o negócio e com visão limitada não vemos outras formas de fazer. É possível também criar projetos comuns ao setor que possam ser utilizados por todos.
Neste sentido é que é possível iniciar uma gestão ambiental?
É preciso verificar os principais custos associados a isso, que envolvem a parte de segurança, destinação dos resíduos, entre outros. Depois discutir com sócios, trocar ideias.
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