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| Fora da crise: setor de combustíveis segue crescendo | Entrevista - Pedro Ramos | ||||||
| O ano de 2009 foi repleto de incertezas para muitos setores da economia. Durante o período, houve o reflexo da crise que assolou mercados de todo o mundo no começo de 2008. Porém, mesmo com esse cenário alarmante, o segmento de combustíveis continuou crescendo. Confira a opinião do economista Pedro Ramos. Mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e responsável pelo setor econômico da Fecomércio do Rio Grande do Sul, ele traça um panorama bastante animador para 2010. | |||||||
Como a crise mundial afetou a economia brasileira?
A crise mundial pode ser dividida em duas fases, a primeira no final de 2008, com a quebra da instituição financeira Lehman Brothers, nos Estados Unidos (EUA), que gerou pânico com relação ao futuro da economia no mundo. Naquele momento, os empresários cortaram investimentos e diminuíram o ritmo da produção, os consumidores pararam de comprar, com alto desemprego e queda da renda. A segunda fase é a que pudemos chamar de real, quando as pessoas viram que no Brasil não haveria a falência de um número expressivo de empresas, como aconteceu nos EUA e na Europa. Verificou-se que a crise era real, o consumo diminuiu, a produção industrial caiu cerca de 20% e as exportações também foram afetadas. O reflexo dessa queda foi o aumento do desemprego. A partir de março e abril, a produção começou a subir e as demissões se estabilizaram. Em agosto, o emprego voltou a crescer.
Os setores que sofreram mais os impactos.
A indústria, de modo geral, foi quem mais sofreu. As cadeias ligadas ao comércio exterior caíram muito. As exportações ficaram cerca de 14% menores em 2009, com relação ao ano anterior. No Brasil, o mercado interno reagiu aos incentivos do governo na economia, o que segurou o consumo. Na medida em que o emprego voltou no País, a massa de salário ficou melhor do que em 2008. E assim que o medo em relação ao desemprego foi se dissipando e a crença no futuro da economia voltou, mais ou menos na metade do ano passado.
O Rio Grande do Sul foi mais afetado do que outros Estados?
O Rio Grande do Sul é agroexportador e exportador de produtos manufaturados. Por sua estrutura produtiva, talvez seja um dos Estados que mais dependam de fatores externos, que mais necessitam do bom andamento da economia mundial para ter bons resultados. Como o desempenho econômico foi muito ruim em todo o mundo no final de 2008 e no começo de 2009, sofremos mais que outros Estados. Aqui a produção industrial caiu mais. Ainda tivemos um agravante que foi a quebra de duas safras de trigo e de milho, a terceira e quarta cultura mais importante da agricultura gaúcha, respectivamente. Ou seja, sofremos com a crise e com o clima. O que salvou um pouco o setor agrícola foi a boa produção de arroz e soja. O desempenho gaúcho ficou abaixo de outros no comércio varejista e na produção industrial.
A revenda de combustíveis gaúcha foi impactada de que forma?
O setor de combustíveis vive um momento peculiar. Segundo os dados da Fecomércio, fechou 2008, crescendo em torno de 10% no Rio Grande do Sul. Se compararmos outubro de 2009 com o mesmo período de 2008, o aumento foi de 5,9%. No acumulado do ano até outubro, em relação ao ano anterior, o crescimento foi de 3,3%. A expectativa é de que o crescimento do ano passado seja cerca de 4%, mas esses dados ainda não foram totalmente contabilizados. O setor de combustíveis tem algumas características próprias. Não tem, por exemplo, uma sazonalidade forte como em todos os outros ramos do varejo. Em função desta questão, e com algumas ações do governo, o desempenho foi positivo durante o ano. O setor de combustíveis e lubrificantes foi o menos afetado. Se não fosse a crise, a revenda teria obtido resultados ainda melhores. As indústrias de refino de petróleo e de álcool e bebidas são as únicas que cresceram em 2009, sendo que a primeira cresceu 16% até novembro em relação a 2008.
E a redução do IPI sobre os automóveis?
Há uma complementaridade entre automóveis. Automóveis não são comprados se puderem ser abastecidos e combustíveis são bens complementares, nesse caso. O mercado de automóveis vinha muito aquecido nos últimos anos, crescendo por volta de 10% em 2008 no Rio Grande do Sul, e teve um desempenho muito ruim no começo do ano passado. A ajuda do governo, com a redução do IPI, foi fundamental para que o mercado de veículos tivesse respondido tão bem. Mais carros foram vendidos e isso segurou a desaceleração do mercado de combustíveis. Vale destacar que o setor é um dos mais fortes do varejo. É inimaginável as pessoas valorizarem, da noite para o dia, outro bem de consumo tanto quanto precisam dos combustíveis.
Os aspectos positivos e negativos da economia nacional em 2009.
A redução industrial muito forte no mundo prejudicou alguns Estados. No Rio Grande do Sul, a quebra de algumas safras agrícolas afetou a economia gaúcha. Mas os aspectos positivos são muitos. O principal é que foi a maior crise econômica pela qual já passamos desde 1929, e o Brasil em menos de um ano já saiu do negativo. Outro fato importante é que a redução da pobreza segue ocorrendo. Isso leva ao surgimento de novos consumidores todos os dias. São pessoas que saem do subconsumo e passam a comprar. Mostra a força da economia brasileira, que está muito calcada no mercado interno. O Brasil começa a reverter um pouco a característica de ser um país de miseráveis.
A crise foi completamente superada?
Acredito que a crise, nos moldes de pânico, acabou. Mas não se caiu em uma crise gratuitamente. Os países desenvolvidos estavam motivando suas economias reduzindo as taxas de juros abaixo da regra do equilíbrio do mercado, a ponto de que as instituições financeiras do mundo tiveram que procurar outras fontes de remuneração para o seu capital. As pessoas puderam comprar sem parar, enquanto que o problema dos países desenvolvidos estava na produtividade do trabalho. Agora, para curar os problemas estruturais é um trabalho de “formiguinha”, não vai ser resolvido em um ano. Estamos vivendo um período de reconstrução, de pós-crise.
Como será 2010? Quais segmentos vão se destacar?
A indústria deve reverter a perda que teve no ano passado em termos de produção. Vai fechar 2009 com queda de 8 ou 9%. A projeção de aumento do PIB industrial no RS é de cerca de 8% neste ano. A indústria vai ter um ano muito bom. A produção agrícola também deve ter crescimento. A confiança do consumidor elevada, a taxa de juros favorável, permitindo financiamentos longos e prestações pequenas, e a taxa de câmbio baixa vão construir um cenário positivo para o comércio varejista. O setor de combustíveis deve continuar crescendo: com o aumento da renda da população, queda do desemprego e confiança do consumidor elevada, mais automóveis serão vendidos. A indústria automobilística vai fazer a sua parte, as pessoas vão estar mais dispostas a usarem seus carros, a retomada da indústria vai aquecer o serviço de transportes. Estamos trabalhando com um cenário muito positivo para 2010. | |||||||
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